Yellow is the new brown

Atenção: não há spoilers.

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Descobri que a brincadeira da vez no Facebook é colocar fotos de girafinhas. Essa seria a “punição” para quem não acertou a resposta de uma charada. Resolvi entrar na brincadeira, que está descrita a seguir:

 

“Responda ao enigma a seguir me mandando a resposta por mensagem para não estragar a surpresa e entregar a resposta. Se você acertar, pode manter a sua foto de perfil e eu coloco seu nome abaixo. Se errar, tem que colocar a foto de uma girafa e deixá-la por 3 dias.

DESAFIO DA GIRAFA:
3:00 da manhã. Batem na sua porta e você acorda. São seus pais que vieram pro café. Você tem manteiga, geleia de morango, mel, vinho, pão e queijo. Qual a primeira coisa que você abre?
Lembre de mandar a resposta só por mensagem se quiser participar. Mas se errar, vai ter que mudar a foto do perfil.”

Logo vieram à minha cabeça algumas alternativas lógicas. Fui eliminando todas me baseando pelas informações que o texto me seu. Após selecionar três respostas, decidi pela mais lógica.

 Mandei a resposta para uma amiga minha, que prontamente respondeu “eu pensei a mesma coisa, mas está errado.”

Imediatamente, imaginei que a resposta “certa” era minha segunda alternativa. Porém, do jeito que o texto foi escrito, ele nos induz ao “erro”. Na verdade, ao fornecer algumas informações irrelevantes, o texto dá um tiro no pé, pois coloca premissas que contradizem a resposta. Por outro lado, ao ignorar algumas informações mais relevantes, ele abre o leque de possíveis respostas lógicas.

Assim, não só me recusei a colocar a girafinha como sugeri à minha amiga que tirasse a dela. Percebi, então, algumas falácias nessa história toda.

Algumas delas estão relacionadas à charada; portanto, não as colocarei aqui, pra não estragar a “brincadeira”. Por outro lado, recomendo que aqueles que acham que “erraram” procurem saber se realmente erraram simplesmente porque o “dono da charada” estabeleceu que a única resposta certa é a dele.

Sim, isso se chama “falácia da autoridade”. Nesse caso, a autoridade é anônima, mas o poder que ela exerce é grande. Por isso, devemos fazer as seguintes perguntas: quem inventou essa charada? Como ela chegou à resposta “certa”? Qual a lógica da resposta? Será que o autor da charada aceita outra resposta, tão ou mais lógica que a sua?

Isso mostra que a entidade anônima (assim como o Mágico de Oz e o Big Brother do famoso livro 1984) pode exercer tanto poder de convencimento quanto celebridades como Hitler e Jamaica do É o Tchan.

Eu gostaria de saber daqueles que estão com a girafinha na foto de perfil qual a resposta que deram. Também queria saber deles se eles, em algum momento, questionaram se a resposta deles estava realmente “errada” e se de fato só cabe uma resposta (a do dono do jogo) nesse texto que, pra mim, está mal-escrito, por induzir ao erro. Isso é uma espécie de “falácia do dilema”.

A falácia do dilema tem bastantes adeptos e é bastante eficaz hoje em dia (não sei quanto a outras épocas). Afinal, a gente é educado na escola à base de V ou F e “Marque um X”.

Quem sabe se nós, educadores, passássemos a considerar atividades subjetivas, com elaboração de respostas com pontos de vista e raciocínios diferentes, a próxima geração não se limitaria tanto nas alternativas?

Ou talvez falte um pouco de autoconfiança pra acreditar nas nossas próprias respostas, em vez de rejeitá-las por causa de anônimos.

Quem quiser saber quais os problemas do texto, uma dica: falácia da pergunta complexa.

Quanto a mim, coloquei a fotinho de um burro; afinal, demorei a perceber que várias respostas a que cheguei podem ser consideradas e, portanto, não precisaria nem saber qual é a resposta “correta”.

Published in: on outubro 29, 2013 at 5:32 pm  Deixe um comentário  

Quem escreve o que quer…

 

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Quem mora em Brasília e/ou lê o Correio Braziliense, sabe que há um caderno dominical chamado Revista do Correio.

Nesse caderno há espaço para várias reportagens inúteis ou fora do meu interesse. Em especial, há uma coluna chamada Crônica da Revista, escrita pela ex-Casseta e Planeta Maria Paula.

Eu sinceramente não me importo com as opiniões e teorias dessas celebridades que, de um dia para o outro, acha que sabe escrever bem e tem conteúdo para opinar sobre vários assuntos. Lembro de ter lido uma única vez essa coluna, como forma de avaliação (que veio a ser “cocô”). Depois disso, ignorei-a por completo.

Entretanto, o título da coluna de hoje (“Adoro horário de verão” – assim, sem o artigo definido) me chamou a atenção. Li, e o resultado foi a seguinte carta-resposta, que inspirou este post.

“Bom dia, Maria Paula.

Da mesma forma que eu li seu artigo “Adoro Horário de Verão” por completo, peço e espero que você retribua a gentileza lendo este e-mail.

Assim como você, sou cria de Brasília. Classe média alta, que morou em outro país, teve conforto e condições de vencer na vida.

Diferentemente de você, sou contra o horário de verão. Aliás, odeio o horário de verão.

Não costumo ler seus artigos no Correio. Infelizmente, como profissional de Letras, acho o teor deles superficial e sem apelo para mim.

(Nada contra você; afinal, não a conheço e, mesmo tentando pegar dados biográficos seus na internet, achei pouquíssima coisa. Inclusive, muitas conclusões às quais tive que chegar para escrever esta carta são intuitivas e preconcebidas. Fique à vontade para refutá-las.)

Entretanto, ao bater o olho no título do seu artigo “Adoro Horário de Verão”, publicado na Revista do Correio de hoje, fiquei curioso para saber se haveria ali alguma explicação que realmente justificasse essa tortura.

Desculpe-me, mas “a luz da manhã muda completamente se você acorda uma hora mais cedo” e “me vi feliz e agradecida pelos minutos a mais de luz disponíveis no nosso dia” não são justificativas razoáveis, pra não dizer que soam elitistas e egoístas.

Se as suas justificativas ainda fossem sobre a economia monetária que o horário de verão traz ao País, eu até entenderia a preocupação com a situação de uma população como um todo (apesar de não achar que essa economia justificaria, por si só, a mudança no horário – mas isso não faz parte desta conversa).

Pois bem: escrevo este e-mail não para criticar seu artigo ou seu ponto de vista. Escrevo porque você publicou no Correio que as reclamações que você ouviu das pessoas sobre o horário de verão não te convenceram.

Aqui, ouso especular que você deve ter ouvido reclamações de pessoas bem de vida, que possuem carro e/ou moram perto do trabalho; que entram no trabalho às 8 ou 8:30 (no mínimo) e que saem às 18. Pessoas cujos filhos vão e vem de carro, taxi ou van (ou possuem o próprio carro). Pessoas que podem contar com empregada ou babá pra, quando chegarem em casa, poderem curtir a “luz dourada do sol”, ou nem irem pra casa: como tem quem cuide do filho, melhor ir pra praia.

Porém, no caso de você ter ouvido reclamações de pessoas que moram a 100 km de distância do trabalho; que precisam pegar ônibus lotado; que precisam, quando chegam em casa, ainda lavar louça, fazer comida, cuidar dos filhos e, portanto, não podem curtir a “luz dourada do sol”; e ainda assim não se convencer, eu diria que você pode ser mais sensível.

Eu pertenço à nata do primeiro grupo descrito ali em cima. Porém, sou daquela minoria que possui relógio biológico intolerante. Pra mim, não é a primeira semana que basta para eu me acostumar: assim como eu, há várias pessoas que precisam de até 40 dias para acordar bem.

Por muito tempo, pensei que esse distúrbio seria apenas uma frescura egoísta de minha parte e, portanto, não servia como justificativa para não haver o horário de verão. Veja bem: assim como você, vivo em volta de pessoas da burguesia, que possui os mesmos confortos e as mesmas preocupações, do tipo happy hour, acordar no raiar do sol e coisas do tipo.

Porém, há anos eu percebi que muitas pessoas (e muitas, muitas mesmo, tipo milhões) não podem se dar ao luxo de se preocuparem com os “primeiros raios de sol iluminando o dia que começa leve e preguiçoso” (sic) (dica de português: há uma vírgula entre a oração principal e a subordinada adjetiva explicativa). E não podem simplesmente porque, quando saem de casa – o que faz a gente entender que acordaram ainda mais cedo -, o sol ainda está ensaiando o espetáculo pra burguês ver.

Eu assisti a uma reportagem certa vez que mostrava uma mãe preocupada com os filhos na época do horário de verão porque eles tinham que sair de casa ainda de madrugada (como adiantamos uma hora no horário de verão, 4:30 da manhã ainda é noite). Os moleques tinham que caminhar quilômetros no escuro até o ponto de ônibus, pois não havia iluminação elétrica no bairro (algo que a gente, da burguesia, toma como óbvio).

Entendo que sua coluna é sobre ensaios, crônicas poéticas sobre o cotidiano. Entendo que, por isso, ela não tende a ser científica nem técnica, muito menos acadêmica. E é por isso mesmo que eu a acho perigosa. Ao afirmar “adoro o horário de verão” e dar justificativas tão superficiais e individualistas, você acaba reforçando comportamentos de pessoas que lerão seu artigo e não se aprofundarão no assunto. Eu sei que você entende isso, pois é formada em Psicologia (que é minha segunda formação).

Mais que isso: o fato de você não ter ido atrás de artigos ou de especialistas na área denota preguiça ou falta de comprometimento com questões sérias. Tudo bem, do jeito que você escreveu o artigo, “Adoro horário de Verão” não deve ser levado a sério. O intuito dessa Revista do Correio como um todo, aliás, é oferecer ao burguês infeliz, à burguesa deprimida, quando acorda no domingo, futilidades como moda, pseudo-ciência, horóscopo e foto de cachorrinho de madame para, assim, reforçar a ideia de que sua vida é privilegiada e que há “coisa boa no mundo” além de estupro, corrupção, morte e Flamengo.

O problema começa quando você tenta justificar e torna seu texto algo argumentativo. Mais ainda: o problema continua quando seu texto é publicado e, portanto (sem querer ser redundante), se torna público.

Na minha opinião, antes de escrever um texto como esse (mesmo sendo uma crônica, mesmo sendo poético), para não ficar na superficialidade e escrever “nenhum deles conseguiu me convencer” – o que indiscutivelmente provoca qualquer pessoa que se acha na capacidade de convencê-la, como eu –, a senhora pode simplesmente pesquisar no bendito google. A senhora já foi pseudo-jornalista no Casseta e Planeta; portanto, deve saber que buscar fontes relevantes é imprescindível. Faça isso para achar “reclamações” que talvez a convençam. Ou não (excelente gíria contemporânea); mas, pelo menos, o senso crítico foi ativado, né?

Para facilitar sua vida, eu mesmo fui atrás de fontes interessantes, e posto os links a seguir:

http://sandrogianelli.com.br/?p=8009

http://www.tribunadeituverava.com.br/VIEW.ASP?ID=28812&TITULO=GERAL

http://www.inatel.br/cipa/index.php/informativos/33-horario-de-verao

http://medicinadoestilodevida.com.br/horario-de-verao/   (veja: este site é sobre medicina)

http://tyrannosaurus.wordpress.com/2008/02/21/afinal-o-horario-de-verao-compensa/

http://www.youtube.com/watch?v=AUxh8JPpoLw

http://www.youtube.com/watch?v=h170ZNSPlEE

Infelizmente, não encontrei a supracitada reportagem que mostra a mãe preocupada com os filhos indo no escuro pra escola; é uma pena, pois talvez as imagens te sensibilizassem mais.

Você provavelmente deve estar pensando (olha a especulação aqui) “quem esse cretino pensa que é? Eu já tive que acordar 3 da manhã pra gravar tal cena” ou “já tive que ir dormir às 3 da matina pra entregar um artigo” ou algo parecido. Todos nós temos que fazer isso de vez em quando na vida. A diferença é que alguns têm que fazer a vida inteira, sem ar-condicionado e sem canapés.

Se você chegou até aqui, agradeço a atenção e peço desculpas pelo teor agressivo do e-mail. Como formada em psicologia, você vai entender que é uma manifestação da minha frustração por não ter o espaço que muitas pessoas têm na mídia para escrever, e volta e meia eu encontrar textos pobres e mal-escritos em revistas e jornais de grande circulação. Chame isso de inveja ou vitimização. Você não foi a primeira e não será a última.

Atenciosamente,

Makoto

Só um adendo: sua frase “Além do que, (o dia) parece durar muito, muito mais” (sic – tem vírgula demais aí) demonstra a superficialidade do artigo: o dia realmente dura muito mais, não por causa do horário de verão, mas por causa do ângulo natural que a Terra faz em relação ao Sol; com o sem esse horário de tortura, os dias estão fadados a durarem mais. Isso ocorre milênios antes da nossa existência.”

Published in: on outubro 27, 2013 at 2:02 pm  Comments (1)  

Perder para ganhar

Adaptado de um livro de Neale Donald Walsch:

“Algumas pessoas querem, mas têm muito medo de deixar seus empregos. Foram apanhadas em armadilhas que elas mesmas planejaram. Acham que, se deixarem o emprego ou o cargo pelo qual tanto lutaram, tudo estará perdido.

No entanto, tudo já está perdido; caso contrário, elas não iriam querer sair. 

A pergunta não é o que perderão se deixarem o cargo, mas o que ganharão. “O que faz com que pensemos em sair do emprego?” Essa é a pergunta.

Quando olhamos para os motivos que levam essas pessoas a pensarem em sair, concluímos que há algo que não anda bem na situação em que se encontram.

O que eu diria às pessoas com esse dilema é: precisamos viver a vida, em vez de ganhar a vida. Elas podem estar muito mais felizes com um terço da sua renda atual se trabalharem em algo que fosse resultado do que elas são, que trouxesse alegria à sua alma.

Esta é a pergunta: o que realmente traz alegria para sua alma? É maravilhoso quando o que se faz para ganhar a vida traz alegria à alma. Porém, isso parece que acontece com uma minoria das pessoas. 

A maioria vive em um silencioso desespero, fazendo o que acha que tem que fazer para sobreviver.

Ao fazer aquilo que traz alegria à alma, alguns amigos e parceiros, membros da família e outros chamarão isso de ser irresponsável. Mas isso é ser responsável pelas próprias escolhas. É a recusa em ser infeliz em qualquer tipo de ocupação ou atividade simplesmente para manter um padrão de vida. Mesmo se eu pensar que a felicidade dos outros é minha responsabilidade, como posso fazer outras pessoas felizes se estou infeliz em minhas tentativas de fazê-las felizes?

Essas pessoas presas em armadilhas podem fazer um pequeno teste. Primeiro, escrever num pedaço de papel: “armadilhas em que fui apanhado”. Depois, descrever a armadilha que os pegou. Por exemplo:

“Estou num trabalho de que não gosto; porém, se eu o deixar, não ganharei o dinheiro que estou ganhando e não serei capaz de ter todas as coisas que tenho para mim e para as pessoas que dependem de mim.”

Isso é uma armadilha. Em seguida, vem a pergunta: “O que aconteceria se eu saísse dessa armadilha?”. Depois de responder a essa pergunta, haverá uma terceira: “O que aconteceria se eu fizesse isso?”

O que se descobre é que o mundo continuará girando.

Há muito anos, aprendi uma lição com a Dra. Elizabeth Kubler-Ross. Um dia, íamos por uma estrada e eu lhe disse que realmente queria fazer alguma coisa, mas que isso exigiria que eu deixasse meu emprego e eu achava que não podia fazer isso, sobretudo porque muitas outras pessoas dependiam de mim.

Elizabeth me olhou calmamente e me perguntou: “E o que todas essas pessoas fariam se você morresse amanhã?”

“Essa pergunta não é justa”, respondi, “porque provavelmente não morrerei amanhã.”

No que ela respondeu: “Não, você está morrendo agora.”

Published in: on outubro 14, 2013 at 5:32 pm  Deixe um comentário