Quem escreve o que quer…

 

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Quem mora em Brasília e/ou lê o Correio Braziliense, sabe que há um caderno dominical chamado Revista do Correio.

Nesse caderno há espaço para várias reportagens inúteis ou fora do meu interesse. Em especial, há uma coluna chamada Crônica da Revista, escrita pela ex-Casseta e Planeta Maria Paula.

Eu sinceramente não me importo com as opiniões e teorias dessas celebridades que, de um dia para o outro, acha que sabe escrever bem e tem conteúdo para opinar sobre vários assuntos. Lembro de ter lido uma única vez essa coluna, como forma de avaliação (que veio a ser “cocô”). Depois disso, ignorei-a por completo.

Entretanto, o título da coluna de hoje (“Adoro horário de verão” – assim, sem o artigo definido) me chamou a atenção. Li, e o resultado foi a seguinte carta-resposta, que inspirou este post.

“Bom dia, Maria Paula.

Da mesma forma que eu li seu artigo “Adoro Horário de Verão” por completo, peço e espero que você retribua a gentileza lendo este e-mail.

Assim como você, sou cria de Brasília. Classe média alta, que morou em outro país, teve conforto e condições de vencer na vida.

Diferentemente de você, sou contra o horário de verão. Aliás, odeio o horário de verão.

Não costumo ler seus artigos no Correio. Infelizmente, como profissional de Letras, acho o teor deles superficial e sem apelo para mim.

(Nada contra você; afinal, não a conheço e, mesmo tentando pegar dados biográficos seus na internet, achei pouquíssima coisa. Inclusive, muitas conclusões às quais tive que chegar para escrever esta carta são intuitivas e preconcebidas. Fique à vontade para refutá-las.)

Entretanto, ao bater o olho no título do seu artigo “Adoro Horário de Verão”, publicado na Revista do Correio de hoje, fiquei curioso para saber se haveria ali alguma explicação que realmente justificasse essa tortura.

Desculpe-me, mas “a luz da manhã muda completamente se você acorda uma hora mais cedo” e “me vi feliz e agradecida pelos minutos a mais de luz disponíveis no nosso dia” não são justificativas razoáveis, pra não dizer que soam elitistas e egoístas.

Se as suas justificativas ainda fossem sobre a economia monetária que o horário de verão traz ao País, eu até entenderia a preocupação com a situação de uma população como um todo (apesar de não achar que essa economia justificaria, por si só, a mudança no horário – mas isso não faz parte desta conversa).

Pois bem: escrevo este e-mail não para criticar seu artigo ou seu ponto de vista. Escrevo porque você publicou no Correio que as reclamações que você ouviu das pessoas sobre o horário de verão não te convenceram.

Aqui, ouso especular que você deve ter ouvido reclamações de pessoas bem de vida, que possuem carro e/ou moram perto do trabalho; que entram no trabalho às 8 ou 8:30 (no mínimo) e que saem às 18. Pessoas cujos filhos vão e vem de carro, taxi ou van (ou possuem o próprio carro). Pessoas que podem contar com empregada ou babá pra, quando chegarem em casa, poderem curtir a “luz dourada do sol”, ou nem irem pra casa: como tem quem cuide do filho, melhor ir pra praia.

Porém, no caso de você ter ouvido reclamações de pessoas que moram a 100 km de distância do trabalho; que precisam pegar ônibus lotado; que precisam, quando chegam em casa, ainda lavar louça, fazer comida, cuidar dos filhos e, portanto, não podem curtir a “luz dourada do sol”; e ainda assim não se convencer, eu diria que você pode ser mais sensível.

Eu pertenço à nata do primeiro grupo descrito ali em cima. Porém, sou daquela minoria que possui relógio biológico intolerante. Pra mim, não é a primeira semana que basta para eu me acostumar: assim como eu, há várias pessoas que precisam de até 40 dias para acordar bem.

Por muito tempo, pensei que esse distúrbio seria apenas uma frescura egoísta de minha parte e, portanto, não servia como justificativa para não haver o horário de verão. Veja bem: assim como você, vivo em volta de pessoas da burguesia, que possui os mesmos confortos e as mesmas preocupações, do tipo happy hour, acordar no raiar do sol e coisas do tipo.

Porém, há anos eu percebi que muitas pessoas (e muitas, muitas mesmo, tipo milhões) não podem se dar ao luxo de se preocuparem com os “primeiros raios de sol iluminando o dia que começa leve e preguiçoso” (sic) (dica de português: há uma vírgula entre a oração principal e a subordinada adjetiva explicativa). E não podem simplesmente porque, quando saem de casa – o que faz a gente entender que acordaram ainda mais cedo -, o sol ainda está ensaiando o espetáculo pra burguês ver.

Eu assisti a uma reportagem certa vez que mostrava uma mãe preocupada com os filhos na época do horário de verão porque eles tinham que sair de casa ainda de madrugada (como adiantamos uma hora no horário de verão, 4:30 da manhã ainda é noite). Os moleques tinham que caminhar quilômetros no escuro até o ponto de ônibus, pois não havia iluminação elétrica no bairro (algo que a gente, da burguesia, toma como óbvio).

Entendo que sua coluna é sobre ensaios, crônicas poéticas sobre o cotidiano. Entendo que, por isso, ela não tende a ser científica nem técnica, muito menos acadêmica. E é por isso mesmo que eu a acho perigosa. Ao afirmar “adoro o horário de verão” e dar justificativas tão superficiais e individualistas, você acaba reforçando comportamentos de pessoas que lerão seu artigo e não se aprofundarão no assunto. Eu sei que você entende isso, pois é formada em Psicologia (que é minha segunda formação).

Mais que isso: o fato de você não ter ido atrás de artigos ou de especialistas na área denota preguiça ou falta de comprometimento com questões sérias. Tudo bem, do jeito que você escreveu o artigo, “Adoro horário de Verão” não deve ser levado a sério. O intuito dessa Revista do Correio como um todo, aliás, é oferecer ao burguês infeliz, à burguesa deprimida, quando acorda no domingo, futilidades como moda, pseudo-ciência, horóscopo e foto de cachorrinho de madame para, assim, reforçar a ideia de que sua vida é privilegiada e que há “coisa boa no mundo” além de estupro, corrupção, morte e Flamengo.

O problema começa quando você tenta justificar e torna seu texto algo argumentativo. Mais ainda: o problema continua quando seu texto é publicado e, portanto (sem querer ser redundante), se torna público.

Na minha opinião, antes de escrever um texto como esse (mesmo sendo uma crônica, mesmo sendo poético), para não ficar na superficialidade e escrever “nenhum deles conseguiu me convencer” – o que indiscutivelmente provoca qualquer pessoa que se acha na capacidade de convencê-la, como eu –, a senhora pode simplesmente pesquisar no bendito google. A senhora já foi pseudo-jornalista no Casseta e Planeta; portanto, deve saber que buscar fontes relevantes é imprescindível. Faça isso para achar “reclamações” que talvez a convençam. Ou não (excelente gíria contemporânea); mas, pelo menos, o senso crítico foi ativado, né?

Para facilitar sua vida, eu mesmo fui atrás de fontes interessantes, e posto os links a seguir:

http://sandrogianelli.com.br/?p=8009

http://www.tribunadeituverava.com.br/VIEW.ASP?ID=28812&TITULO=GERAL

http://www.inatel.br/cipa/index.php/informativos/33-horario-de-verao

http://medicinadoestilodevida.com.br/horario-de-verao/   (veja: este site é sobre medicina)

http://tyrannosaurus.wordpress.com/2008/02/21/afinal-o-horario-de-verao-compensa/

http://www.youtube.com/watch?v=AUxh8JPpoLw

http://www.youtube.com/watch?v=h170ZNSPlEE

Infelizmente, não encontrei a supracitada reportagem que mostra a mãe preocupada com os filhos indo no escuro pra escola; é uma pena, pois talvez as imagens te sensibilizassem mais.

Você provavelmente deve estar pensando (olha a especulação aqui) “quem esse cretino pensa que é? Eu já tive que acordar 3 da manhã pra gravar tal cena” ou “já tive que ir dormir às 3 da matina pra entregar um artigo” ou algo parecido. Todos nós temos que fazer isso de vez em quando na vida. A diferença é que alguns têm que fazer a vida inteira, sem ar-condicionado e sem canapés.

Se você chegou até aqui, agradeço a atenção e peço desculpas pelo teor agressivo do e-mail. Como formada em psicologia, você vai entender que é uma manifestação da minha frustração por não ter o espaço que muitas pessoas têm na mídia para escrever, e volta e meia eu encontrar textos pobres e mal-escritos em revistas e jornais de grande circulação. Chame isso de inveja ou vitimização. Você não foi a primeira e não será a última.

Atenciosamente,

Makoto

Só um adendo: sua frase “Além do que, (o dia) parece durar muito, muito mais” (sic – tem vírgula demais aí) demonstra a superficialidade do artigo: o dia realmente dura muito mais, não por causa do horário de verão, mas por causa do ângulo natural que a Terra faz em relação ao Sol; com o sem esse horário de tortura, os dias estão fadados a durarem mais. Isso ocorre milênios antes da nossa existência.”

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Published in: on outubro 27, 2013 at 2:02 pm  Comments (1)  

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